Aterro sanitário e lixão são a mesma coisa? Entenda as diferenças e os desafios do encerramento
De acordo com o engenheiro civil Márcio André Savi, a distinção entre um aterro sanitário e um depósito de lixo não decorre da quantidade de resíduos recebidos, mas sim dos processos de engenharia implementados no local. Enquanto o primeiro é concebido para isolar os resíduos do solo, da água e do ar, o segundo consiste em um terreno onde o lixo é lançado sem qualquer controle ambiental.
A distinção em questão possui efeitos práticos. A Política Nacional de Resíduos Sólidos estabeleceu o término das atividades de disposição de resíduos em lixões, bem como a destinação de rejeitos exclusivamente em locais ambientalmente apropriados. Os prazos para a implementação dessas medidas, originalmente estipulados e posteriormente prorrogados, já expiraram. Ainda assim, o descarte irregular persiste em diversos municípios brasileiros, e entender por que isso acontece ajuda a dimensionar o tamanho do problema.
Quais são as diferenças entre aterro sanitário, aterro controlado e lixão?
As três formas de disposição costumam ser confundidas, mas apresentam níveis muito diferentes de proteção ambiental. A diferença está nas estruturas implantadas antes, durante e depois do recebimento dos resíduos:
- Lixão: descarte a céu aberto, sem preparo do terreno, sem impermeabilização, sem tratamento de chorume e sem controle de gases, com presença frequente de vetores de doenças e queimadas.
- Aterro controlado: os resíduos recebem cobertura periódica de terra, mas o local não conta com impermeabilização da base nem com tratamento completo dos líquidos gerados, o que o mantém fora do padrão considerado adequado.
- Aterro sanitário: obra de engenharia com base impermeabilizada, drenagem e tratamento de chorume, captação de gases, compactação e cobertura diária dos resíduos, além de monitoramento ambiental contínuo.
Conforme explicado por Márcio André Savi, o aterro controlado pode gerar confusão devido à aparência de organização que transmite. A cobertura com terra reduz odores e a presença de animais, porém não impede que o chorume se infiltre no solo e alcance a água subterrânea, justamente porque falta a camada de proteção na base.
O chorume é o líquido formado pela decomposição da matéria orgânica somada à água da chuva, com alta carga poluente. A decomposição desse material libera metano, um gás de efeito estufa que, caso não seja devidamente captado, tende a se dispersar para a atmosfera, possivelmente contribuindo para incêndios. Portanto, a falta de controle resulta na transformação do lixão em uma fonte permanente de contaminação.
Por que os lixões ainda resistem?
O principal obstáculo identificado é de natureza financeira. A implantação, operação, monitoramento e encerramento de um aterro sanitário exigem investimentos vultosos, cujos custos são difíceis de serem sustentados por municípios de pequeno porte, dada a sua capacidade limitada de gerar volume para diluir tais despesas.

Segundo a avaliação de Márcio André Savi, o sucesso das soluções regionais depende de um sólido e bem estruturado sistema logístico. Consórcios intermunicipais permitem a partilha de um mesmo aterro, porém, a distância até a unidade aumenta o custo de transporte, o que frequentemente resulta na necessidade de implantar estações de transbordo, onde os resíduos são concentrados antes de seguirem viagem.
A conclusão de um lixão não se resume meramente ao fechamento do portão. A área continua gerando chorume e gases por anos, e muitas famílias de catadores dependem da atividade realizada no local. Portanto, é necessário desenvolver alternativas de inclusão social, como a integração a cooperativas e programas de coleta seletiva.
Márcio André Savi, profissional da área de engenharia, destaca que o encerramento adequado deve ser iniciado com o diagnóstico do passivo ambiental. A partir deste ponto, são definidas medidas como cobertura final, drenagem de líquidos e gases, recuperação da vegetação e monitoramento das águas subterrâneas ao longo do tempo.
Destinação adequada como parte da infraestrutura urbana
A substituição de lixões por aterros sanitários constitui uma etapa fundamental da gestão de resíduos, embora não represente o final da discussão sobre o tema. A redução, a reciclagem e o tratamento de resíduos antes da disposição final são medidas que, quando implementadas pelo município, prolongam a vida útil do aterro e reduzem os custos de manutenção.
A análise de Márcio André Savi sobre o tema contribui para a compreensão de que a destinação correta envolve engenharia, planejamento regional e atenção ao passivo deixado pelas áreas antigas. Quando tratada como infraestrutura permanente, e não como obra pontual, a drenagem urbana protege o solo, a água e a saúde da população por décadas.



